domingo, 19 de dezembro de 2010

Coletiva da Galeria Arte Plural

Coletiva de fim de ano da Galeria Arte Plural - Recife (Estado de Pernambuco)
Até 30 de Janeiro de 2011

Artistas:    Alberto Cunha Melo  (in memoriam)

Almandrade
Daniel Santiago, Humberto Magno, Fernando Vasconcelos
e Roberto Botelho

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Geometrias, escritas e gestos

Raul Córdula

Esta coletiva de fim de ano que a Galeria Arte Plural – um dos poucos
espaços comerciais brasileiros especializado em fotografia de alta
qualidade, e também em artes visuais presentes em circuitos
alternativos – promove agora, tem dois sentidos. O primeiro é o da
memória, quando coloca a arte de dois importantes e históricos
artistas sessentões, Daniel Santiago e Humberto Magno, ao lado de dois
“novos-maduros” como Fernando Vasconcelos e Roberto Botelho.

O outro sentido, não menos interessante, é a presença de Almandrade,
artista baiano de Salvador – é preciso dizer isto porque hoje o
interior da Bahia é pródigo de boa arte, haja vista Feira de Santana e
o Recôncavo. A presença de Almandrade nos traz de novo a intenção de
intercambiar nossa manifestação mais ativa deste mundo do Nordeste, e
a sua geometria simbólica nos mostra como esta tendência da arte é tão
perene, tão renovada na sua sutileza latinoamericana. Almandrade
também é um artista que escreve sobre teoria da arte defendendo pontos
de vista contemporâneos no seu conteúdo. É a primeira vez que o
público do Recife verá sua obra.

Todos eles, de certa maneira, são geométricos, isto é, têm na
geometria, exata ou sensível, a referência para pensar o mundo. Mesmo
Fernando e Daniel, que se mostram mais gráficos que exatos, sugerem a
geometria nas origens de suas criações, onde se sente o poema
processo, o poema visual e a poesia concreta.

Fernando descende do binômio concretismo/neoconcretismo que tem origem
no modernismo atuante no eixo (Rio/São Paulo) nos anos 50, embora ele
não seja tão antigo. Este período nos trouxe também a poesia concreta
que inspira esta série de pinturas que ele mostra agora, embora sua
arte tenha por base uma geometria elegante e rigorosa. Mas justamente
o grafismo espontâneo que hoje se vê nas ruas descende também, no seu
caráter urbano, do grafismo industrial, da tipografia, da animação
visual da metrópole, o que, em Fernando, se traduz nestes poemas
derramados.

Daniel Santiago é  uma lenda viva na arte do Recife. Vanguardista nos
anos 70 foi um pioneiro de novas mídias como a arte postal, a arte em
“out door”, a xerografia, o cinema de artista e a arte digital.
Trabalhou ao lado de Paulo Bruscky mantendo a equipe Bruscky/Santiago,
produzindo “happenings” – o equivalente a “performances há duas
décadas. É importante sua presença nesta mostra, pois se trata também
de seu retorno ao público que há muito não contempla sua obra no
Recife. Daniel mostrará, no entanto, um trabalho mais recente e
diferente do que estamos acostumados a ver, são desenhos a quatro
mãos, em conjunto com o saudoso poeta Alberto Cunha Mello. Esta
parceria, rara e preciosa, nos fala de como é intensa a relação
interpessoal entre as poéticas artística e literária.

Humberto, advindo de uma geometria rigorosa, sua penúltima fase, se
volta para o realismo da indústria utilizando como suporte embalagens
de isopor aonde pinta suas composições. Com Almandrade, forma o
conjunto tridimensional da mostra. Sua história artística inicia-se na
Olinda dos anos 60, no Movimento da Ribeira, continua na Bahia onde
criou e executou um mural em relevo para o centro Administrativo, ao
lado dos mais importantes artistas baianos da época. Na Bahia Humberto
se formou em arquitetura e exerce este mister atualmente no Recife

Roberto é o pintor por excelência, amante da cor e da estética
moderna, de quando a retina era – e continua sendo – gratificada pela
cor, pela harmonia, pela marca da mão e pelo surpreendente inesperado.
No Recife é publicitário, mas na sua carreira profissional sempre
esteve ao lado da arte independente, isto é, não aplicada como é o
caso da arte da propaganda. Seu vasto currículo se confunde com o de
muitos artistas de sua geração que freqüentam as galerias com
assiduidade.

Persiste, no entanto, um equívoco recorrente do tradicionalismo que
ainda nos oprime, modernos que somos: trata-se da distinção entre arte
geométrica e o simples ornato. Isto talvez seja gerado pela visão
belasarteana que se impõe nas três principais categorias da arte
acadêmica – figura, paisagem e natureza morta – sobre todas as outras
formas de arte advindas do modernismo que já completa, desde o
impressionismo, quase dois séculos de existência.

Escrevi no prefácio de uma exposição do amigo Braz Marinho, um
geométrico contumaz: “A questão da arte geométrica não reside na
forma, mas no conteúdo – o conteúdo da forma – que se revela na
impressão de tensões produzida no olhar. Arte geométrica não é a arte
da forma, não significa produção de formas em composições decorativas,
mas a criação de poéticas construídas a partir do ritmo, da cor e do
material expressivo, onde a forma geométrica pode ser a constante. Os
artistas geométricos, embora pareçam ser artistas do “bom gosto”, do
subjetivismo, da arte fácil e simplificada capaz de ser executada sem
a participação do artista, embora pareçam designers, e não artistas
estão envolvidos em questões filosóficas que os levam a plasmar
idéias, mais que imagens.”

Recife é uma cidade cheia de vanguardas, desde o evento de 22, quando
nossos representantes eram artistas de tendência construtivas – Cícero
Dias com seu desenho judiciosamente diagramado na página que evoluiu
para uma pintura geométrica nos anos 50, e Vicente do Rêgo Monteiro
com sua figura geometrizada – passando pela arte geometria tropical de
Lula Cardozo Ayres, pela obra de Aloisio Magalhães, misto de arte e
design como foi o desenho industrial brasileiros no tempo de sua
implantação feita pelo próprio Aloisio. Se prestarmos atenção, veremos
contaminações geométricas na obra de Hélio Feijó, Abelardo da Hora e
Corbiniano Lins, e do Mestre Ypiranga, por exemplo, nas suas
bricolagens metálicas e vanguardistas. Na década de sessenta Montez
Magno e Anchises Azevedo, e hoje temos, além de Braz e dos que são
motivos deste comentário, José Patrício, Eudes Motta e Sebastião
Pedrosa, por exemplo. Então esta arte geométrica e sua consequência, a
arte de origem grafista, continuam existindo no Recife com força
criativa e renovadora.

(recebido por e-mail)

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