sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Texto crítico

A seguir, texto crítico escrito pelo nosso aluno Clayton Marinho.

Exposição de Quadrinhos.

Foi de um amadorismo e infantilidade grotescos! Assim defino a exposição coletiva de histórias em quadrinhos, e a complexidade de sua produção promovida pelo SEBRAE, sem título, com onze de sete talentos norte-rio-grandenses (Wendell Cavalcanti, Wanderline Freitas, Giovana Leandro, Wolclenes Freitas, Tati Viana, José Veríssimo, Carlos Alberto, Gabriel Actraiser, Victor Negreiro, Joseniz Guimarães e Lula Borges). Bom, é assim que está lá. Fazem referência aos sete talentos, mas há onze expondo. Essa é última do ano nesse espaço cultural do Natal Shopping - muito escondido, por sinal.
Não foi ruim por parte do proponente, a sua iniciativa e disposição, mas dos que expuseram seus trabalhos na galeria. Essa exposição é uma mostra do descaso e inconsistência dos que produzem quadrinhos neste Estado. E o pior é que isso encobriu o brilho do talento dos expositores. Chamou-me mais atenção o descomprometimento no modo como se expôs o trabalho, como trataram essa arte, do que a habilidade deles. Digo isso porque é preocupante: se eu tenho essa idéia quando já conheço esse meio e alguns que o fazem, vejo a luta e a responsabilidade, a vontade em transformar os quadrinhos numa cultura para o Estado e dar-lhes o reconhecimento como tal, é desesperador ver que os próprios desenhistas têm descaso com essa arte. Os expositores não se preocuparam com a apresentação de seu trabalho, colando-os em cartolinas, de qualquer jeito, impressos em papel de péssima qualidade, quando não, com aparência de trabalhos xerocados de última hora! Os próprios expositores não souberam aproveitar o espaço e divulgar seus trabalhos – eu soube por acaso que essa exposição haveria, de um dos expositores (mas mais alguém soube?), mostrando-os, de forma que aparentavam mais um trabalho escolar bem acabado. Se o fim fosse esse, estariam bem, uns trabalhos bonitinhos para serem expostos numa feira de escola, por exemplo. Mas, como se trata de uma exposição, a preocupação com a forma de expor deveria ser mais madura e profissional.
É indiscutível que a cultura das Hq’s é precária no nosso Estado e que não há o mínimo de incentivo para sua promoção. Mas, deve-se pensar que essa falta de incentivo é dicotômica: primeiro porque não há o interesse de se promover a cultura pelo Estado e pelo poder privado e, segundo, certamente, é a forma como os próprios quadrinistas se mostram frente a esse mercado. Ainda tratam a história em quadrinhos como uma “rebeldia juvenil” e se tratam como adolescentes despreocupados que desejam, basicamente, contrariar (quem? Sabe Deus!) sem saberem bem por que ou como, quando, na realidade, agem como todo bom contemporâneo alienado, tentando “definir-se na sociedade”.
Esse modo irresponsável enfraquece o segmento porque os desenhistas tornam-se incapazes de construir uma imagem sólida como profissionais e de propor um mercado próspero para os quadrinhos, para se estabelecerem como mercado. Os quadrinhos são uma arte complexa que exige estudo, criatividade, habilidade - o que é visível no trabalho de todos que expuseram; mas é, preciso acima de tudo, comprometer-se e responsabilizar-se com esse projeto e, construir ações para que os demais também o vejam como é: um mercado muito promissor e fantástico.
Isso ocorre porque não temos estudos econômicos e estatísticos, só pedagógicos e lingüísticos, que comprovem a rentabilidade do mercado e coloquem-no no mundo dos negócios. Simplesmente, não há nenhum tipo de estudo que construa uma visão do estado desse mercado, porque, as empresas (distribuidoras e agências de publicação) que a fazem não se preocupam, nem os próprios desenhistas. Não há agências, aglomerados que trabalhem de forma estatística, estratégica e profissional com esse mercado no estado. É espetacular a função estética intercalada com a função lingüística e a possibilidade pedagógica que os quadrinhos proporcionam, mas o que um investidor deseja saber é se isso é rentável: quanto vende, se tem uma demanda, quanto cresce por ano, ou seja, números, tabelas, gráficos e dinheiro. Enfim, a informalidade e o amadorismo reinam absoluto nesse meio, porque os desenhistas ainda se preocupam em estabelecê-la como arte, como uma poética juvenil e assaz libertadora.
No RN, temos a Garagem Hermética de Quadrinhos; o GRUPEHQ, que até hoje é incapaz de se consolidar como um grupo, porque aqueles que o fazem são incapazes de construírem uma estratégia, uma abordagem sistematizada para solidificar-se como um grupo de artistas produtores de quadrinhos e não viverem à mercê das leis de incentivos e da informalidade, subsistindo às sombras daqueles que o mantém; e os artistas que trabalham para agências que, quando vêem uma oportunidade, escapam logo aos olhos dos daqui, por saberem que ficar seria um suicídio profissional.
Independentemente das formas como se encontram as HQ’s no estado, o certo é que todas são ineficientes em criar uma cultura aqui e merecer - essa é a palavra! - investimentos, porque jamais pensaram em provar que esse mercado é rentável. Não esqueçam, meus caros quadrinistas, que, antes de uma boa história ou de um bom desenho, talento ou reconhecimento, o que interessa aos que investem é rendimento. E se nós somos incapazes de mostrar-lhes que nosso ramo dá dinheiro, ficaremos em nossos idealismos inúteis e nosso talento só nos servirá para vivermos sugando benefícios de leis de incentivos, promovermos oficinas e montarmos cursos de desenhos, para que alguém, algum dia, faça o que não fomos capazes.

Um comentário:

Adriana disse...
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